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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

"For the old times"

- Mas e aí, Will, como vão as coisas no Rio?
- Um pouco entediantes. Fiz alguns amigos por lá, mas nada se compara ao pessoal daqui.
- Mas e a faculdade?
- Ah, ta legal até.
William deu um suspiro e sentou-se na beirada do pier. Melanie fez o mesmo.
- Eu sei como você queria ir para Harvard, MIT, Yale ou qualquer uma dessas faculdades e até hoje não acredito que não te aceitaram. Eles realmente não sabem o ótimo aluno que perderam!
Will sorriu com o canto da boca, mas logo ficou sério. Ele queria contar a verdade para ela, queria dizer o verdadeiro motivo de “não ter sido aceito”, mas não podia.
- Pois é, mas eu soube que você quer tentar também.
- Sim, no momento estou resolvendo aqueles milhares de exercícios do SAT em casa.
- Acho que você consegue sim! Seu inglês é um dos melhores que eu conheço.
- Ah, mas você sabe que não depende só disso.
- Sim, mas…
Houve um silêncio. Melanie olhava para William ainda confusa com a frase sem fim, mas logo deu de ombros e voltou a apreciar o horizonte. O sol estava começando a deitar-se sob as árvores ao fundo, “um cenário de filme perfeito”, pensou.
- O que acha de sairmos hoje como nos velhos tempos? - perguntou Will, de maneira a quebrar o gelo que começava a se formar entre eles.
- Hum, eu não sei se posso - respondeu Mel, com o olhar ainda fixado na paisagem
- Por quê não?
- Acho que o Peter não conseguiria ir, e eu estou com ele agora.
- Ah Ninie, mas são pelos velhos tempos! Eu falo com ele! Prometo que cuido de ti e não deixo ninguém te machucar.
Melanie observou todas as expressões dele enquanto as palavras saiam de sua boca. Era incrível, mas ela realmente pôde sentir a pureza e a firmeza de Will em cada sílaba, lembrando-lhe a confiança de anos atrás.
- Ok - concordou Mel.
William sorriu.
- Passo as 8:00 para te buscar. Esteja pronta, mocinha!

William

Haviam por volta de cem pessoas no funeral de Trisha e metade delas Melanie havia visto apenas uma ou duas vezes na vida. Todas diziam o quão especial sua mãe era, mesmo sem terem passado talvez uma semana em sua convivência.
- Meus pêsames, Ninie.
“Ninie”, fazia tempo que ela não era chamada assim… Na verdade só existia uma pessoa no mundo que a tinha apelidado dessa maneira, William! Melanie se virou em um piscar de olhos e deu-lhe um fraterno abraço.
- Will! Nossa, faz uns dez anos que não nos vemos! - disse, se desvencilhando dele.
- Na verdade, sete. Como você está?
Ela o encarou e deu de ombros. Em seu rosto ainda era possível ver lágrimas em volta dos olhos avermelhados.
- Certo, pergunta estúpida. Eu sinto muito pela sua mãe, me lembro como ela era legal nós levando nas festinhas teens daquela época.
Melanie sorriu levemente e se sentou no banco mais perto. Era verdade, Trisha sempre levava e buscava os dois em qualquer evento que tivesse. Ela conhecia a mãe de William a anos e falava com ela praticamente todos os dias, até eles se mudarem para outro estado.
- Lembra da primeira vez em que bebemos? - perguntou sentando-se ao lado de Mel - Ela ficou realmente braba e disse que nunca mais iria nos levar em nenhum lugar juntos.
Ela se lembrava daquele dia, mais especificamente do final da noite daquele dia. Ele tinha-a beijado. Fora o seu primeiro beijo, jamais esqueceria um acontecimento como aquele. Melanie começou a se lembrar de todos os passeios que fizeram, e como Trisha havia dito aquela noite, dessa vez ela nunca mais levaria-os a algum lugar. Mel não suportou a ideia de que todas aquelas memórias seriam agora apenas lembranças, e desabou a chorar. William entendeu o que ela sentia e nem ousou falar-lhe para não chorar, simplesmente a envolveu em seus braços.
- Will?
Era Peter quem estava perguntando, enquanto caminhava em direção aos dois.
- E aí cara!
William levantou para cumprimentá-lo, deixando Mel completamente confusa e com os olhos ainda vermelhos. “De onde eles se conheciam?”, pensou.
- O que você faz por aqui? Achei q tivesse voltado para Rio. - indagou Peter.
- E eu voltei, mas quando soube do ocorrido peguei o primeiro avião para cá. Eu realmente queria me despedir da Trisha.
- Você conhecia a mãe dela? Por que nunca me contou isso?
- Você nunca me disse que namorava a Ninie, nunca me mostrou nenhuma foto dela, nem…
Melanie interrompeu-o. - Pera, de onde vocês se conhecem?
Foi Peter quem respondeu.
- Lembra que eu dividia o meu ap com um cara? Bom, o Will era o cara.
Claro, agora tudo fazia sentido! Peter sempre falava do colega de quarto festeiro, mas nunca tinha apresentado-o a ela.
- Mas e vocês? Como se conheceram?
- Bom… - começou Melanie
- Nós somos amigos de infância, nossas mães se conheciam e tal - completou Will, sorrindo com o canto da boca.

"Goodbye, mom"

O céu já começava a escurecer, mas ainda haviam resquícios da luz do sol entrando pela janela da sala. Melanie lia trechos de Clarice Lispector - “Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam”. A poesia a acalmava, era incrível. Nem sempre ela as compreendia, mas ler sempre fora sua paixão. Sua mãe, Trisha, não economizava quando se tratava de livros e havia ensinado Mel desde pequena a absorver cada palavra, cada vírgula, cada ponto final. Nos últimos dias no entanto, não pudera fazer muito quanto à isso, já que seu estado havia piorado visivelmente. 
Uma chaleira chiava alto da cozinha.
- O chá está pronto, mãe. Vou lá buscar.
Trisha assentiu com a cabeça, enquanto Mel colocava o livro de lado, queria desligar logo aquele ruído. Alguns minutos depois Melanie voltava pelo longo corredor que dava na varanda, onde antes ela estava. Era possível ver Trisha de perfil, sentada na antiga poltrona do pai de Mel. Não havia nenhum movimento, nenhuma brisa, nenhuma respiração. Duas xícaras se espatifaram no chão e Melanie caiu de joelhos. Lágrimas escorriam de seus olhos, os cacos já começavam a cortar-lhe a pele, seu coração parecia estar quase parando, mas Mel continuava estática. Apenas duas palavras lhe saíram pela boca:
- Adeus, mãe.

"I will stay here with you"

Eles estavam sentados na sala de espera. Era uma cirurgia complicada e demorada. Melanie percorria os olhos por uma revista de moda que havia encontrado no canto do sofá, Peter assistia à tv. Estava passando um programa de culinária.
- Acho que vou pegar um café, quer um?- Não, obrigada. Peter se levantou e ao mesmo instante o médico apareceu atrás dele.- Melanie Wilson?- Sim. - Terminamos a cirurgia e ocorreu tudo perfeitamente bem. Trisha já está no quarto, mas ela vai ter que passar a noite aqui.- Se está tudo “perfeitamente bem”, por que ela vai ter que passar a noite aqui? - sua voz era agitada.- É apenas para observação, procedimento necessário após uma cirurgia como esta.Mel ficou em silêncio, fitando o médico, tentando ter a certeza de que não havia nenhuma mentira em suas palavras.- Se você quiser, pode ir ver a Trisha.- Sim, eu quero.- Por aqui… Ela pegou a mão do Peter e puxou-o para seu lado. Eles seguiram até uma porta no final de um corredor. Trisha ainda estava dormindo, provavelmente pelo efeito da anestesia. Ela não estava conectada à nenhum aparelho, mas havia um tubo que ia do local da cirurgia até um dreno que estava ao lado de seu corpo.- Tenho que atender outros pacientes, mais tarde volto para vê-la.Peter assentiu com a cabeça e passou o braço pelo ombro de Melanie, ela estava tensa. - Vai ficar tudo bem!Mel continuava imóvel, como se estivesse em transe. Ela olhava fixamente para sua mãe, buscando acreditar no que via. Ela nunca esperava ter que passar por uma situação como aquela, era algo que não desejaria à ninguém.- Vamos dar uma volta enquanto ela dorme, aí você aproveita e come algo.- Não! Eu vou ficar aqui.- Mas Mel, você precisar comer alguma coisa, faz quase 12 horas que você não coloca nada no estômago.- Não, Peter, eu não vou sair daqui enquanto ela não acordar!Ele percebeu que ela estava decidida, respirou fundo e sentou-se na poltrona mais perto que tinha.- Então ta, eu fico aqui com você.

"Save her at the end of the day"

Peter estava sentado na sombra de um carvalho quando ela chegou. Era um dia alegre, quente e ensolarado, mas Mel estava desanimada e incrivelmente fria. 
- Oi Pê.Ela estava de cabeça baixa e sua voz era fraca. Ele percebeu que ela havia se esforçado para falar aquelas duas simples palavras. - Oi amor, o que houve? Você parecia muito angustiada no telefone.Ela se sentou embaixo da árvore e se aconchegou nos braços de Peter. Seus olhos já estavam encharcados.- Ah Mel, não fique assim, eu estou aqui!Ele sentiu o choro dela aumentar e subitamente abraçou-a com todas as suas forças. Ela retribuiu.Quando finalmente se sentiu mais serena, Mel se afastou e começou a mexer desesperadamente em sua bolsa. Retirou de lá um envelope e ficou segurando-o durante um tempo antes de entregar à Peter.- Eu fui no hospital hoje com a mãe buscar uns exames e…- Não me diga, eu vou ser pai?! - sua voz era alegre e ele já começava a sorrir.- Infelizmente não. Seria realmente muito bom se fosse isso, mas não, eu não estou grávida.- Ah, que lástima. Mas seria realmente muito bom se…Ela o interrompe.- Minha mãe está com câncer em estágio terminal.Ele não acreditava no que tinha ouvido, até pensou em perguntar “o quê?” mas tinha escutado muito bem as palavras que ela dissera e sabia o quão difícil foi de articulá-las. Peter conhecia a mãe dela, Trisha. Era uma mulher guerreira, trabalhou a vida inteira para garantir uma boa educação e uma boa casa para Melanie, mas era sozinha. Havia se separado quando Mel tinha apenas cinco anos e desde então eram apenas as duas. - Ela vai morrer, Pê! Minha mãe vai morrer… Mel chorava profundamente nas mangas de sua blusa, enquanto murmurava algumas palavras. Peter a cercou com os braços, formando uma espécie de barreira. Ele era a barreira, mas no desenlace ele seria o bloqueio, o bloqueio que a protegeria contra todo o mal do mundo, que a amaria para sempre e a salvaria no final do dia.

"I think we got married"

- Pê?
- Ã? Sim, o que houve? - Nada, só queria ouvir a sua voz.- Mel, são quatro horas da manhã!- Eu sei, mas é que eu perdi o sono.- E por isso precisava me ligar? - Nossa, Peter, desculpa.- Não, não é isso! É só que eu tava no meio de um sonho muito tri e você me acordou.- Hum e como era esse sonho?- Ah, Mel, posso te contar amanhã?- Não! - ela deu uma leve risadinha.- Ta - ele respirou fundo - Bom, nós estávamos em um hotel em Las Vegas e…- Espera, “nós em um hotel”?! - Sim, por quê?- Iiiih isso não vai dar certo. Ele riu do outro lado da linha - Voltando ao sonho… Já era noite lá, mas nós decidimos dar uma volta pela cidade. Aí encontramos uma daquelas capelas que eles casam as pessoas, sabe? - Aham.- Bom, nós entramos e acho que nos casamos. - Como assim acha?- Você me acordou antes que eu pudesse descobrir.- Ah, mas é óbvio que nós casamos! - sua voz era alegre.- Como você tem tanta certeza?- Você não?- Sei lá.- “Sei lá”?- É! Claro que eu iria me casar com você, nem que fosse a última coisa que eu fizesse nesse mundo, mas não precisa de uma autorização e tal?- Pê, era um só um sonho… tudo podia acontecer!

"You won't lose me"

Ela estava junto ao corpo dele, com a cabeça em seu ombro, passando a mão suavemente em seu peito exposto. Ele estava fitando-a já fazia um tempo.
- Ainda me olhando?
- Admirando.
- É estranho - ela fez uma careta.
- Pode até ser, mas nunca vou me cansar de olhar para você.
Ela deu um sorriso de leve e levantou a cabeça a fim de olhá-lo. Seus olhos estavam mais claros do que nunca, uma mistura de verde com marrom. Ela sentia o calor do corpo dele e de seus músculos enrijecidos enquanto a abraçavam.
- Olha só quem está olhando quem agora - ele deu uma risada baixinho.
- Seu idiota! - ela puxou um travesseiro e bateu-o nele.
- Ai, essa doeu! Acho que só vai sarar com um beijo.
Ele comprimiu o rosto aparentando estar machucado e ela riu.
- Isso, ria da desgraça dos outros.
Melanie sorriu e deu-lhe um beijo, primeiramente onde estava supostamente machucado, depois em seus lábios, seu pescoço, seus ombros…
Quando enfim se soltaram, Peter deu um sorriso com o canto da boca e sentou-se na cama.
- Bah, esse remédio é muito bom, mas acho que ainda não curou todo o machucado.
Ele levantou uma sobrancelha ainda com o olhar fixado no dela. Mel sorriu, ela estava feliz ali, ao lado dele.
- Faz de novo.
- O que?
- Sorri daquele jeito
Ela sorriu. Suas bochechas ficaram rosadas.
- Assim?
Peter fez que sim com a cabeça e ela aconchegou-se de novo junto à ele.
- Preciso ir embora.
- Não, fica!
- Não dá, já é quase oito horas da noite e eu não apareço em casa faz dois dias.
- Ah não, fica, por favor! Mais um pouquinho - sua voz era doce.
- Não dá, o Will já deve ter destruído todo o apartamento com a “reunião íntima” de ontem.
- Eu não quero que você vá.
Melanie estava com os olhos rasos d’água e então ele entendeu, ela achava que ele sumiria de vez. Com a ponta dos dedos ele lhe tocou as maçãs do rosto, acariciando-as.
- Mel, você não vai me perder - seu olhar era sério e sua voz era calma, mas ao mesmo tempo confiante - Eu te amo.
Ele se levantou, pegou sua camisa que estava na mesa de cabeceira, deu-lhe um beijo na testa e foi embora.
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